A seca na Amazônia pode se prolongar até março de 2027 devido à atuação de um El Niño de forte intensidade. O alerta divulgado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) aponta que a região deve enfrentar chuvas irregulares, temperaturas acima da média e redução da disponibilidade de água entre o fim de 2026 e o início do próximo ano.
O cenário é especialmente preocupante na Amazônia Ocidental, que inclui o Amazonas. A combinação de pouca chuva, calor intenso e baixa umidade pode acentuar a vazante dos rios, comprometer o transporte fluvial e criar condições favoráveis para novos incêndios florestais.
A projeção não significa ausência completa de chuva até março. O alerta indica que as precipitações podem permanecer abaixo da média e ser insuficientes para recuperar rapidamente rios, solos e lençóis freáticos. A Embrapa aponta que a seca hidrológica e o déficit de chuva poderão se estender até março de 2027.
El Niño pode estar entre os mais fortes desde 1950
O Painel El Niño 2026-2027 aponta probabilidade superior a 95% de que o fenômeno alcance intensidade muito forte entre outubro e dezembro. Caso o cenário se confirme, o episódio poderá estar entre os mais intensos observados desde 1950.
Confirmado em junho, o El Niño ocorre com o aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. O fenômeno altera a circulação atmosférica e influencia a distribuição das chuvas em diferentes regiões do Brasil.
No Norte e em parte do Nordeste, os efeitos normalmente estão relacionados à redução das precipitações, ao aumento das temperaturas e ao agravamento da seca. No Sul, o comportamento tende a ser oposto, com chuva acima da média e maior risco de enchentes.
Os modelos indicam que o fenômeno deve permanecer ativo pelo menos durante o primeiro trimestre de 2027. As projeções, no entanto, representam tendências sazonais e podem sofrer alterações conforme a evolução das condições oceânicas e atmosféricas.
Amazonas enfrenta agravamento da seca
O Amazonas está entre os estados nos quais as condições de seca apresentaram rápido agravamento. Dados do monitoramento federal indicam que áreas do estado chegaram a avançar até duas categorias de severidade em apenas um mês.
O Índice Integrado de Seca do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) também mostrou aumento do número de municípios brasileiros em situação de seca severa e extrema. Parte dos registros mais críticos está localizada no Amazonas.
Na bacia do rio Negro, a condição passou de seca fraca para moderada em agosto. As projeções já indicavam possibilidade de intensificação para a categoria severa em setembro.
O agravamento pode dificultar o abastecimento de água, prejudicar a navegação e ampliar o isolamento de comunidades ribeirinhas. Em muitos municípios amazonenses, os rios são as principais vias utilizadas para transportar alimentos, medicamentos, combustíveis e equipes de saúde.
Nível dos rios reforça preocupação
Em Manaus, o rio Negro estava em 24,09 metros no dia 1º de setembro. O nível era 2,59 metros inferior ao registrado no mesmo período de 2025.
Os dados do Porto de Manaus mostram que o rio continuou descendo rapidamente durante setembro, acompanhando o avanço do período de vazante.
Em Itacoatiara, o rio Amazonas registrava 9,95 metros, diante de 12,13 metros observados no ano anterior, segundo os dados reunidos no alerta.
A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico prevê vazões abaixo da média em diferentes bacias do Norte até dezembro. Nos afluentes da margem esquerda do Amazonas, incluindo o rio Negro, há risco de níveis inferiores ao esperado para o período.
Seca não significa ausência total de chuva
Apesar da possibilidade de a seca se estender até março de 2027, a previsão não indica que a Amazônia ficará todo esse período sem precipitação.
Pancadas de chuva poderão ocorrer durante os próximos meses, inclusive com episódios de forte intensidade em algumas localidades. O problema está na distribuição irregular e no volume acumulado abaixo da média histórica.
As precipitações poderão não ser suficientes para compensar o déficit de água acumulado, recuperar a umidade do solo e provocar uma subida consistente dos rios.
Por isso, mesmo com a chegada do chamado inverno amazônico, popularmente associado aos meses mais chuvosos, os efeitos da estiagem poderão continuar sendo sentidos durante o início de 2027.
Calor aumenta risco de incêndios
A combinação entre temperaturas elevadas, vegetação ressecada e umidade reduzida aumenta o risco de queimadas em áreas de floresta, pastagens e propriedades rurais.
O Painel El Niño identificou crescimento da atividade de fogo ao longo de 2026. Entre julho e agosto, o aumento foi de 146%. Em setembro, houve nova elevação de 66%.
Para o trimestre entre outubro e dezembro, 395 municípios brasileiros aparecem em alerta alto e outros 533 em situação de alerta para risco de fogo, segundo o Cemaden.
No Amazonas, a continuidade do período seco poderá favorecer incêndios de rápida propagação, especialmente em áreas onde houver uso irregular do fogo para limpeza de terrenos ou renovação de pastagens.
Produção rural poderá ser afetada
A falta de chuva também ameaça lavouras, pastagens e a criação de animais. Entre os possíveis impactos estão perda de produtividade, redução da disponibilidade de água para os rebanhos e comprometimento do calendário de plantio.
A Embrapa chama atenção para a chamada “seca verde”. Nesse fenômeno, a vegetação mantém uma aparência esverdeada, mas apresenta pouca umidade e redução do valor nutritivo em razão da falta de água no solo.
As consequências podem incluir perda de pastagens, estresse hídrico em cultivos como mandioca, milho e feijão, redução da produção de alimentos e aumento dos custos para agricultores e criadores.
A diminuição do volume de água em lagos e rios também pode provocar aumento da temperatura e queda da concentração de oxigênio, elevando o risco de mortalidade de peixes.
Período mais crítico deve ocorrer até janeiro
As projeções da Embrapa indicam que o período mais crítico para a seca deverá ocorrer entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.
Durante esses meses, a combinação de calor intenso e precipitações abaixo da média poderá acentuar os impactos sobre os rios, a produção rural e a disponibilidade de água.
Embora o El Niño tenha papel importante nesse cenário, os órgãos de monitoramento ressaltam que ele não é o único responsável pelo comportamento das chuvas na Amazônia. As condições do Oceano Atlântico Tropical também podem amenizar ou intensificar os efeitos previstos.
Por isso, as projeções deverão ser atualizadas periodicamente. A recomendação é acompanhar os boletins da Embrapa, do Inmet, do Inpe, do Cemaden, do Serviço Geológico do Brasil e dos órgãos estaduais de Defesa Civil.
Fonte: AM POST